Ana Paula Castela é autora de uma tese que aborda a sociedade actual através das tatuagens. A arte virou moda e deixou de ser um reduto de jovens e marginais.

Há quem goste e quem não goste, mas é difícil ficar-lhes indiferente. As tatuagens tornaram-se uma moda nos últimos anos e é com a chegada do Verão que este facto ganha peso. O corpo menos tapado revela o que anda escondido no tempo frio.

Ana Paula Castela apercebeu-se disso numa ida ao Rio de Janeiro. Nas praias da cidade maravilhosa não faltavam tatuados a exibirem-se e tatuadores a fazerem o mesmo. “Enquanto estive na praia devem-se ter aparecido aí uns 15 a quererem-me fazer tatuagens”.

De regresso a Portugal esta lisboeta, que é professora da Escola Superior de Gestão de Idanha-a-Nova e vive em Castelo Branco há quase 30 anos, deitou mãos à obra e iniciou uma investigação que resultou na tese de doutoramento “O Corpo Escrito- As Tatuagens na Pós-Modernidade”, pela Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Salamanca.

Neste trabalho as tatuagens são um veículo para estudar a sociedade contemporânea, novos valores e maneiras de ver o corpo.

Para Ana Paula Castela o bilhete de identidade deixou de ser a única marca do indivíduo. “As pessoas hoje em dia identificam-se pelos seus gostos musicais, estilos de vida”, agrupando-se em tribos. E isto não é propriamente uma novidade já que as tatuagens existem desde os tempos mais remotos da humanidade. O homem do gelo do Neolítico tinha 57 tatuagens.

“Nalgumas tribos tinha a ver com o sublinhar da linhagem da família (…) há outros caso em que tem a ver com os rituais de passagem e marcar acontecimentos da tribo”. Algumas destas razões continuam actuais, como a investigadora verificou ao longo das quase quatro dezenas de entrevistas que fez para a tese.

Um dos homens com quem falou, de 23 anos, estava a tatuar na zona da barriga a frase “don´t trust”, em português “não confies”. Ele disse-lhe que o fez porque tinha de deixar marcado na pele este aviso permanente.

Os homens que fazem tatuagens usam o corpo para marcar um acontecimento da vida, como uma espécie de biografia. As mulheres “consideram a tatuagem uma jóia que vai tornar o seu corpo mais atraente”.

Para alguns o corpo é uma verdadeira galeria de arte e não se inibem de fazer centenas ou milhares de quilómetros para serem tatuados. É aqui que entra o vício, que muitos assumem e provam com a pele.

Nem jovens, nem marginais

No mundo das tatuagens há também ideias feitas que o estudo de Ana Paula Castela clarifica. A primeira tem a ver com a idade de quem as faz. A generalidade dos tatuados têm entre 25 e 40 ou mais anos, não só porque os menores precisam de autorização parental mas também porque não têm poder de compra. A tatuagem é mesmo um meio de afirmação da juventude. “Há 30 anos os jovens queriam ter um ar adulto e hoje é exactamente ao contrário, os pais querem parecer-se com os filhos”, diz Ana Paula Castela.

Este também deixou de ser um reduto de marginais e hoje “há advogados, juízes e professores com tatuagens”. Impunha-se por isso a pergunta a Ana Paula Castela: tem tatuagens ? A resposta é afirmativa e conta que durante as entrevistas fez duas. “E vou fazer outra, porque não há dúvida que isto é um vício”.